"Cada um é prisioneiro desse corpo a alimentar, abrigar, cuidar, fazer existir e que incomoda dolorosamente. Lá estão eles com sua idade, seus pulsos, seus cabelos, suas véias, a complicada delicadeza de seu sistema nervoso, seu sexo, seu estômago. Seu tempo deteriorado. Seu nascimento que foi para cada um o começo do mundo, a beirada da duração que os conduziu até aqui".
O egoísmo humano é amedrontador.
quinta-feira, 7 de outubro de 2010
"O HORROR ECONÔMICO" de Viviane Forrester, romancista, ensaísta e crítica literária do jornal Le Monde de París.
O "Horror Econômico" de Viviane Forrester é um livro amplo no que se trata da miséria humana. A autora aponta muito bem as várias facetas do sistema capitalista com muita ironia e poesia para dar voz aqueles que não sabem se expressar porque nunca aprenderam engolindo sempre o que lhe jogam goela à baixo. A miséria humana está a um passo dos grandes cassinos, clubes de luxo, hotéis cinco estrelas, mansões de magnatas, e nós aceitamos com uma resignação de uma ferida que deixou sua cicatriz para sempre em nossa memória. Quando lembrada (a miséria) não causa nem dor mais, apenas uma frase silenciosa surge vagando em nossas mentes onde diz: "A vida é injusta, que triste". Em suas palavras, como uma dor absurda que grita na escrita, ela usa poesia e toca aqueles que ainda preserva a sua sensibilidade não deixando esse "racionalismo" dominar seu corpo e mente. Aqui, eu aponto duas de suas frases, tirada de seu livro "O Horror Econômico",onde percebemos tamanha indignação: "Quando jovem, uma energia que é imediata e incessantemente desprezada, castrada; quando velho, uma fadiga que não encontra lugar de repouso, o mínimo bem-estar, nem a menor consideração". "Não existe pior angustia que a esperança". P.36-37 do livro.
quarta-feira, 8 de setembro de 2010
O CASO DA RECEITA.
por Janine Ribeiro
8 de setembro de 2010 às 10:19h
A exploração política do caso é exagerada
Por Renato Janine Ribeiro*
“”Cortem-lhe a cabeça!”, disse a rainha. “Mas sem processo?”, perguntou Alice. “Primeiro a condenação e depois o processo”, explicou a rainha. “No meu país é o contrário”, retrucou Alice. “Aqui, não”, concluiu a rainha.” Lembro dessa cena de “Alice no País das Maravilhas” quando leio o inflacionado debate sobre algo que é erradíssimo -a violação do sigilo fiscal de cinco nomes do PSDB, de centenas de outras pessoas na agência Mauá da Receita e de centenas de milhares de declarações de renda vendidas na rua 25 de Março (em SP).
Mas a exploração política do caso é exagerada. Aquele que retirou a declaração de Veronica Serra não é respeitado nem pelos jornalistas. Nada nele demonstra estilo petista, embora tenha aderido ao PT logo após a vitória de Lula -adesão que, pelo visto, não levou a nada.
Mas os jornalistas creem numa única afirmação dele: o episódio visaria a prejudicar José Serra (PSDB). Por que essa seleção do que merece crédito? Ainda mais levando em conta que, se alguém pode ser prejudicado, é Dilma Rousseff (PT).Na verdade, afora o fato de que declarações de renda são vendidas na rua há anos, o que me preocupa de imediato são duas coisas.
A primeira é que a imprensa abriu mão de cobrir, a sério, as eleições. O Paraná, por exemplo, vive um pleito complexo, mas os jornais apenas repetem descrições, sem explicar como uma sociedade rica tem uma política pobre.
Esse é um exemplo entre muitos. A cobertura eleitoral é função dos institutos de pesquisa, dos escândalos e, bem pouco, do trabalho dos repórteres. Isso augura mal para o futuro de uma profissão que um dia quis exercer.
O outro ponto: sem provas da ligação do detestável delito com a candidatura Dilma, o candidato que está atrás nas pesquisas quer anular na Justiça os votos dela.
Se for jogo de cena para levar ao segundo turno, não é bonito, mas vá lá. Se for uma tentativa de anular 60% dos votos válidos e empossar um presidente votado por 25% dos eleitores, será um golpe fatal na nossa democracia.
Melhor seria a oposição e a imprensa que a apoia aceitarem que nas eleições se perde e se ganha, que elas não são uma guerra em que se mata o inimigo, mas uma competição em que o povo escolhe o preferido para cada cargo.
E o povo não merece que se destrua a democracia, que a discussão política se reduza a uma crônica policial ou que os vários lados fiquem de birra um com o outro.
Teremos, todos nós, que construir este país, pelo resto de nossas vidas. Melhor evitar paixões e atos que tornem, depois, difícil a colaboração, pelo menos entre quem gosta do Brasil.
RENATO JANINE RIBEIRO é professor titular de ética e filosofia política do Departamento de Filosofia da USP. Foi diretor de Avaliação da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), do Ministério da Educação (2004-08), no governo Lula
8 de setembro de 2010 às 10:19h
A exploração política do caso é exagerada
Por Renato Janine Ribeiro*
“”Cortem-lhe a cabeça!”, disse a rainha. “Mas sem processo?”, perguntou Alice. “Primeiro a condenação e depois o processo”, explicou a rainha. “No meu país é o contrário”, retrucou Alice. “Aqui, não”, concluiu a rainha.” Lembro dessa cena de “Alice no País das Maravilhas” quando leio o inflacionado debate sobre algo que é erradíssimo -a violação do sigilo fiscal de cinco nomes do PSDB, de centenas de outras pessoas na agência Mauá da Receita e de centenas de milhares de declarações de renda vendidas na rua 25 de Março (em SP).
Mas a exploração política do caso é exagerada. Aquele que retirou a declaração de Veronica Serra não é respeitado nem pelos jornalistas. Nada nele demonstra estilo petista, embora tenha aderido ao PT logo após a vitória de Lula -adesão que, pelo visto, não levou a nada.
Mas os jornalistas creem numa única afirmação dele: o episódio visaria a prejudicar José Serra (PSDB). Por que essa seleção do que merece crédito? Ainda mais levando em conta que, se alguém pode ser prejudicado, é Dilma Rousseff (PT).Na verdade, afora o fato de que declarações de renda são vendidas na rua há anos, o que me preocupa de imediato são duas coisas.
A primeira é que a imprensa abriu mão de cobrir, a sério, as eleições. O Paraná, por exemplo, vive um pleito complexo, mas os jornais apenas repetem descrições, sem explicar como uma sociedade rica tem uma política pobre.
Esse é um exemplo entre muitos. A cobertura eleitoral é função dos institutos de pesquisa, dos escândalos e, bem pouco, do trabalho dos repórteres. Isso augura mal para o futuro de uma profissão que um dia quis exercer.
O outro ponto: sem provas da ligação do detestável delito com a candidatura Dilma, o candidato que está atrás nas pesquisas quer anular na Justiça os votos dela.
Se for jogo de cena para levar ao segundo turno, não é bonito, mas vá lá. Se for uma tentativa de anular 60% dos votos válidos e empossar um presidente votado por 25% dos eleitores, será um golpe fatal na nossa democracia.
Melhor seria a oposição e a imprensa que a apoia aceitarem que nas eleições se perde e se ganha, que elas não são uma guerra em que se mata o inimigo, mas uma competição em que o povo escolhe o preferido para cada cargo.
E o povo não merece que se destrua a democracia, que a discussão política se reduza a uma crônica policial ou que os vários lados fiquem de birra um com o outro.
Teremos, todos nós, que construir este país, pelo resto de nossas vidas. Melhor evitar paixões e atos que tornem, depois, difícil a colaboração, pelo menos entre quem gosta do Brasil.
RENATO JANINE RIBEIRO é professor titular de ética e filosofia política do Departamento de Filosofia da USP. Foi diretor de Avaliação da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), do Ministério da Educação (2004-08), no governo Lula
Assinar:
Postagens (Atom)