terça-feira, 23 de julho de 2013

Em entrevista, policiais revelam como agem os grupos de extermínio em São Paulo


Agentes afirmam que esquadrões de morte são organizados por policiais de “patente alta” e há envolvimento de políticos
22/07/2013
por Igor Carvalho
da Revista Fórum
Dois policiais militares foram convidados a participar de grupos de extermínio que se organizam dentro da Polícia Militar do Estado de São Paulo. Ao recusar o convite, passaram a ser perseguidos dentro da corporação. P1 e P2, como serão chamados nessa matéria, estão ameaçados de morte, sofrem com escalas desumanas de trabalho e seguem isolados dos demais companheiros.
P1 e P2 aceitaram falar, sob condição de anonimato, com Fórum. Foram necessários três encontros sem qualquer entrevista gravada, apenas negociando. Somente na quarta reunião, em um local reservado, no interior de São Paulo, os agentes decidiram falar. Foram mais de três horas de entrevista, com acusações que revelam uma estrutura corrompida e precária da Polícia Militar.
Os agentes afirmam que os oficiais de “patente alta” são responsáveis pela imagem ruim da corporação. Para P1 e P2, a perseguição a cabos, soldados e sargentos é equivocada.  Os assassinatos feitos por encomenda e o envolvimento com comerciantes, para prestação de serviços de segurança, tem aval de policiais de alta patente. “A coisa é grande, é gente grande, tem político envolvido no meio.”
Os números mostram que ações violentas fazem parte do cotidiano das polícias paulistas. De 2001 até 2011, policiais em serviço ou em folga foram responsáveis pela morte de 6.809 pessoas, no estado de São Paulo. A cifra é quase o dobro do total de civis mortos por agentes americanos em todos os estados dos EUA no mesmo período. Os índices fizeram com que, em maio de 2012, o Conselho de Direitos Humanos da ONU sugerisse ao Brasil a extinção da Polícia Militar.
Em 2012, 547 pessoas foram assassinadas em confronto com a Polícia Militar no estado de São Paulo. Os casos são registrados com o “auto de resistência seguida de morte”. “Está tão na cara que não é verdade, que não tem mais quem acredite. Se os oficiais inventarem esse teatro para se proteger nada acontece”, afirma P2, sobre os autos. Além dos números oficiais, há uma quantidade grande de homicídios que também podem ser responsabilidade degrupos de extermínio.
Confira a entrevista abaixo:
Fórum - Existe grupo de extermínio dentro da PM, no estado de São Paulo?
P1 - Sim, existe.
Fórum - Como operam esses grupos?

P1 - Como posso falar? Existem vários interesses que vem desse pessoal, dos comandantes, de querer algo em troca. É muita autoridade que dão para eles. Ou seja, ele comanda uma área, essa área é subordinada a ele, que é o chefe, passa atribuições, passa tais serviços e coloca você para trabalhar para outras pessoas. É ele que vê para onde a viatura vai ter que se deslocar, quem vê em quais comércios as viaturas vão ficar. Se você for contra os ideais do comando, é colocado em um pelotão em que vai ter que fazer alguns serviços desumanos, questão de horas de serviço, a sua escala vai ser pior, é um jogo mental. As pessoas que fazem o que eles [comandantes] querem, tem melhor escala, se tornam protegidos.
Fórum- Fazer o que eles querem, é participar de grupos de extermínio?

P1- Isso. Se for o caso, se for chamado para isso. Se você vê alguma coisa e delatar, sua família e você vão correr risco também. P2 - O que você quer saber é o seguinte: Tudo começa com os oficiais, não com a gente aqui embaixo. São oficiais, grandões. Quem comanda isso é gente de patente alta, todo mundo está enganado. Todo mundo só averigua soldado, cabo, sargento e até um tenente, mas não é, é coronel, é capitão e major. A coisa é grande, é gente grande, tem político envolvido no meio.
Fórum - Que tipo de político está envolvido no meio?
P2 - Você quer um exemplo? Na minha unidade tem um sargento que é o capanga de um político, ele é o testa de ferro dele. Esse cara se tornou o escalante na minha unidade, ele coloca a viatura aonde quer. Se os caras vão fazer algum tipo de serviço sujo em determinado local, ele tira a viatura dali e coloca em outro lugar.
Fórum - “Se os caras”? Quem são os “caras”?

P2 - Oficiais. Capitão e major. Ou mesmo o político. Então, é isso que acontece, só gente grande. Se nós fizermos algo, acabou pra gente, estamos numa situação de escravidão. Eu e o colega [outro policial presente na entrevista] estamos numa situação de escravidão. Estamos passando justamente o que você está perguntando, se a gente não participa [grupos de extermínio], a gente não presta.
Fórum - Vocês já participaram?

P2 - Não e não quero.
Fórum - O que acontece com quem se recusa a participar dos grupos de extermínio?

P2 - Sofre como estamos sofrendo: tortura psicológica, escalas, eu fui trancado numa sala, fui trancado por um sargento, porque estou afrontando um oficial, e ele é o braço direito desse oficial.
Fórum - Mas já te intimaram a participar desses grupos?

P2 - Já. Você não tem noção do que é isso aí, é uma máfia, pior do que o PCC. Você não tem noção do que é isso aí por dentro.
Fórum - Que tipos de interesses estão por trás desses grupos?

P1 - Começa com uma coisa de injustiça. Os policiais percebem que estão fazendo a coisa certa, mas os bandidos estão sempre saindo pela porta da frente. Aí começa o seguinte, a pessoa quer fazer justiça com a própria mão, aí a pessoa perde aquele ideal de proteção à sociedade e passa a oferecer perigo. Tem o envolvimento com o comércio, se torna um negócio, porque o cara tá precisando de um “serviço” e falam “ah, tem um cara aí que faz”, aí o cara já matou 10, 12, 15, começa a se tornar esse comércio de vidas.
Fórum - Estamos vendo chacinas nas periferias da cidade e na Grande São Paulo. Não me parece que a motivação seja só comercial.

P2 - Aí o problema é social e de governo. O governo tem autoridade para dar aumento para os “polícia”, dar rádio, armamento, comunicação, mas ele não faz. O governador não gosta de polícia, ele só pisa em polícia. O “polícia” está na rua imprensado, o povo não gosta de polícia e o governo não ajuda, é confronto direto, o que o camarada faz? “Não tem jeito, vou ter que partir para aquilo, vou ter que fazer”, e aí começa. Mata um, mata dois, mata dez.
Fórum - Ganha gosto em matar?

P2 - Tem gente que mata por gosto e tem gente que mata por necessidade. Veja bem: esse sargento que eu falei corre com gente errada, vagabundo e político. Aí ele ganha poder e ameaça os policiais da corporação. Chega na gente e fala: “Você tem filho e você tem pai, vou te matar”. “Ah, o senhor vai matar?”. Antes de o cara me matar, eu mato ele. Aí começa. Aí é um negócio que não para mais, porque aí você precisa matar outro, e outro, e não para mais. E tem aqueles que fazem por dinheiro. Esse sargento ameaçou de morte onze pessoas, tem uma firma em que o cara contratou ele. Funciona assim, o dono da empresa não quer pagar os direitos dos funcionários, ele contratou uma policial feminina e um policial, e eles foram nessa firma. Tem uma sala para eles, eles foram fardados e de viatura. O sargento recebe os funcionários, coloca a arma na cabeça e fala: “Se você não pedir a conta, eu mato você”, e ele mata mesmo. Esse cara não trabalha na rua, trabalha “interno”.
Fórum - Porque vocês acham que morre tanto negro na periferia?

P1 - O que acontece é o seguinte, a Polícia Militar de São Paulo é uma instituição forte, em que todo mundo tenta cumprir o certo. Isso que está acontecendo são pessoas de má índole que estão querendo acabar com a instituição. Mas veja bem, quem teria que fazer as coisas, não faz, foram lá fazer acordo com o PCC, com o Marcola. É uma instituição que tem como melhorar, mas as pessoas de patente alta não ajudam, não é todo mundo, não podemos generalizar.
Fórum - Como atua um grupo de extermínio?

P2 - Os “patente alta” têm uma equipe deles, de Força Tática, de RP, ou de Administração, eles têm os caras de confiança. Então, o que acontece, ele é o escalante, coloca uma viatura onde quiser, sai e manda o pessoal fazer o trabalho e tira as viaturas de perto.
Fórum - Então, se determinado oficial quer fazer uma ação em determinada área, ele tira as outras viaturas da região para poder atuar?

P2 - Isso. Mas é só nego grande, não é gente pequena. Sargento é pequeno, essa máfia é coisa pesada.
Fórum - O que vocês sentem, quando veem a forma como a Polícia Militar vem sendo tratada, com tanto descrédito?

P2 - Eu sinto pena, porque entrei na polícia para ser polícia, não vagabundo, vagabundo tem demais na rua. Então, assim, estou indignado porque o certo é errado, e o errado é certo e isso está prevalecendo, ou seja, estou sendo acusado por oficiais de fatos que não cometi, não tenho como provar, estou dependendo de advogados, pagando esses advogados.
Fórum - Tudo isso porque não quis participar desses…

P2 - É. Eu fiz o certo, fiz tudo que está na lei, afrontei um oficial grande, que não gostou de minha atitude. Estou sendo perseguido, humilhado, não tenho escala, sem ambiente social, estou sendo ameaçado e passando necessidade na minha casa.
Fórum - Quando o governador do estado coloca alguém que já comandou a Rota e que tem algumas mortes nas costas, para comandar a Polícia Militar, vocês sentem que, de alguma forma, quem está dentro pode entender que é uma carta branca para matar nas ruas?

P2 - De todo jeito tem [essa carta branca], com ou sem ele.
Fórum - Existem grupos de extermínio fora da capital e Grande São Paulo?

P2 - Sim, mas a maior pegada é na Baixada Santista, a Baixada é pior.
Fórum - A corregedoria e a Polícia Civil investigam o que acontece internamente, na Polícia Militar?

P2 - Só soldado e cabo. Foi o que eu falei, se eles fizessem um pente fino nos oficiais, vocês iriam se surpreender, não têm noção do que acontece ali dentro.
P1 - Vocês sabiam que em 2006, quando começaram os ataques do PCC, os oficiais alugaram quartos em um determinado hotel de Sorocaba e ficaram se protegendo lá, enquanto que o policial e sua família estavam morrendo?
P2 - Presta atenção em algo: o governo quer colocar a população contra a PM. Ele quer, não, está conseguindo fazer isso.
Fórum - Como fica o policial que tenta ser correto, ao ver tantos policiais que estão morrendo na rua?

P2 - Revolta. É desmotivação.
P1 - Seus ideias começam a se perder. Como vou dar segurança para a sociedade, se estou correndo risco de morrer? Começa a ocorrer uma guerra interna na corporação. Pô, você sai para fazer o patrulhamento e a cabeça fica pensando na mulher que tá em casa, no filho na escola.
Fórum - Qual o perfil do policial que atua em grupos de extermínio?

P1 - Calmo, bem sossegado, você nem imagina que ele seja capaz de fazer esse tipo de coisa.
P2 - E é oficial, patente alta.
Fórum - Se não partir do governo ou da Secretaria de Segurança Pública, não haverá mudança?

P2 - Não terá. Ou o governo limpa o alto escalão da PM, ou vocês não vão conseguir acabar com os grupos de extermínio. Tudo vem de lá, lá de cima. Ou limpa-se o alto escalão da PM, ou não haverá jeito.
Fórum - Nunca houve, dentro da unidade, uma tentativa de denunciar e se levantar contra tudo isso?

P1 - Estamos sufocados, não tem como. Se você abrir a boca, vai para o Presídio Romão Gomes, direto.
Fórum - Vocês pensam em sair da polícia?

P2 - Várias vezes.
P1 - Bastante.
Fórum - E porque vocês ficam?

P1 - É a vontade de fazer o correto, ainda acredito no ideal da Polícia Militar. A coisa mais gostosa do mundo é quando alguém está passando uma necessidade e você pode ajudar, aí depois a pessoa te procura e agradece pelo que fez.
P2 - Para que você tenha uma ideia do que estamos sofrendo. Você já pesou na balança que o que esses oficiais querem é a mesma coisa que o PCC quer? Você já parou para pensar que os policiais que morreram é tudo praça? Não tem oficial. Por que? O que nos chegou é que o acordo determinava que morressem somente praças (patentes baixas) e em dia de folga. Sabe por que? Para o governo não pagar os R$ 100 mil que a família tem direito, porque se morrer fardado tem que pagar o seguro que é R$ 100 mil.
Fórum – O comando da Polícia Militar, hoje, faz parte desse contexto do crime organizado em São Paulo?

P2 - Ele é o cabeça do crime organizado. É simples: o comandante da Polícia Militar, como ele visa lucro? Multa. A Rodoviária (Polícia) tem uma meta de multa, se não fizer aquele número ele tá fodido. Se não fizer, é cana.
Fórum – Vocês identificam que no comando da Polícia existem pessoas que enriqueceram em um nível que não é compatível com o que ganham?

P2 - (risos) Um monte.
P1 - Eles têm motorista particular. Tem notebook, celular, Nextel, carro, que ganham de parceiros, tudo de graça.
Fórum – O que vocês pensam da Rota?

P2 - É um mal necessário. Porque o governo descambou, desmoralizou a Polícia Militar. A Rota chegou ao extremo, em sua atuação, devido ao comando. O governo usa a Rota como se fosse escape, perdeu o controle.
Fórum – A PM é treinada para proteger ou matar?
P2 - Hoje, para porra nenhuma. Nem treinamento temos, nem bota para trabalhar eu tenho.
Fórum – O Tribunal de Justiça Militar intimida alguém? Como é a atuação do TJM?
P2 - Só tem coronel lá dentro. Qual deles tem curso de Direito? Alguém é promotor ou juiz lá? Quantos policiais inocentes, que não quiserem pertencer a máfia foram parar lá e eles condenaram? Para que existe isso, esse TJM? Para o alto comando não existe lei, a lei é eles. Eu quero saber porque oficial não é mandado embora da PM quando comete um crime? Porque o soldado é expulso e condenado, enquanto o oficial é transferido?
Fórum – O auto de Resistência Seguida de Morte está sendo usado da forma correta ou banalizou?

P1 - Até a gente lá dentro desconfia.
P2 - Está tão na cara que não é verdade, que não tem mais quem acredite. Se os oficiais inventarem esse teatro para se proteger, nada acontece. Porque a corregedoria da Polícia não investiga policiais? Oficial ganha R$ 20 mil por mês? Ganha carro? Eu soube que oficiais ganharam carros da Honda. Por que a corregedoria não bate pesado lá em cima?
Foto: Zanone Fraissa/Folhapress
Fonte: Brasil de Fato.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Em seis meses de legalização, Uruguai não registra mortes de mulheres que abortaram


Foram realizados 2.550 abortos legais, aproximadamente 426 por mês. O Uruguai é um dos países com taxas de aborto mais baixas do mundo
19/07/2013

do Sul21

O subsecretário do Ministério da Saúde Pública do Uruguai, Leonel Briozzo, apresentou nesta semana os dados oficiais sobre interrupções voluntárias de gravidez dos primeiros seis meses desde a sua legalização no país. Entre dezembro de 2012 e maio de 2013, não foi registrada a morte de nenhuma mulher que abortou de forma regulamentada no Uruguai.
Foram realizados 2.550 abortos legais, aproximadamente 426 por mês. O Uruguai é um dos países com taxas de aborto mais baixas do mundo. Briozzo explicou que desde o novo marco legal para o aborto, o país os pratica de forma segura, com a consolidação de serviços de saúde para este fim.
A política pública do governo tem o objetivo de diminuir a prática de abortos voluntários a partir da descriminalização, da educação sexual e reprodutiva, do planejamento familiar e uso de métodos anticoncepcionais, assim como serviços de atendimento integral de saúde sexual e reprodutiva.
Segundo esses dados, o Ministério da Saúde Pública atesta que 10 em cada mil mulheres entre 15 e 44 anos abortam no Uruguai atualmente. Esses números situam o país entre um dos que têm menores indicadores, ao lado dos estados da Europa Ocidental.

Fonte: Brasil de Fato.

Daleste e seus algozes

Se o Estado não tem moral na periferia, evidentemente que isso não é fruto de letras ofensivas feitas por jovens entusiastas do crime, e sim, entre tantas coisas, resultado da terrível qualidade dos serviços públicos oferecidos à parcela pauperizada da sociedade – serviços estes que incluem, por sua vez, a truculência policial
16/07/2013

Por Christian Gilioti*

Para além de meros indivíduos, existem homens e mulheres que conseguem fazer de suas vidas a expressão livre, fiel e radical de poderosas ideias – ou ideais. Mas o contrário também é verdade: não são raros os casos em que ideias dotadas de alguma força tomam de assalto pessoas fazendo delas seres menores, reféns de motivos absolutamente exteriores, reduzindo-as praticamente à condição de marionetes.
Os primeiros são muito poucos; os segundos, a grande maioria. E é no mínimo intrigante reconhecer que a trajetória do menino Daniel Pellegrine – mais conhecido como MC Daleste – parece combinar simultaneamente os dois fenômenos.
Daleste foi covardemente assassinado no dia 6 de julho, desfecho de uma vida bastante jovem e que merecia seguir em frente – ele tinha apenas 20 anos de idade. Repleto de mistérios, impactante sobretudo pela circunstância insólita em que ocorreu (morreu em cima do palco durante show que realizava em quermesse no CDHU do bairro San Martin, periferia de Campinas), o assassinato virou espetáculo no youtube e nos programas mais sórdidos do jornalismo nacional de perfil sensacionalista.
Não demorou muito para o esgoto reacionário e protofascista transbordar pelas bocas dos analfabetos políticos; centenas de comentários se alastraram na internet comemorando a morte do funkeiro, boa parte, aliás, impulsionados pela cobertura da grande mídia que fez questão de associar a produção artística do garoto ao “funk proibidão” – sem dúvida, o ramo mais estigmatizado de um gênero musical contraditoriamente cultuado por parte considerável da juventude brasileira e, ao mesmo tempo, rechaçado por diferentes setores e camadas sociais.
Para quem não conhece muito de funk, o “proibidão” (também chamado de “neuroticão” ou “da apologia”) é um estilo mais agressivo cujas letras celebram o modo de vida daqueles que atuam no crime organizado (PCC, Comando Vermelho e etc.). Uma leitura chapada encontra ali apenas o elogio de práticas criminosas e brutais em geral descritas com naturalidade, como se não passassem de aventuras infanto-juvenis, exaltando a figura do bandido. Este último, personagem central, é idolatrado graças a um determinado ‘poder’ que ele próprio possui e faz questão de ostentar.
Diferente dos comuns, sua superioridade seria por assim dizer garantida a partir de um privilégio: a capacidade de exercer violência contra as forças policiais, as classes dominantes e os grupos inimigos. Partindo daí, não são poucos os que reconhecem o “proibidão” como um tipo de música execrável que incentiva o ingresso dos adolescentes no chamado “mundo do crime” e banaliza formas violentas de convívio, além de promover a desmoralização da polícia e, por tabela, também do Estado.
Mas embora tudo isso não deixe de parecer verdade, trata-se tão somente de uma verdade superficial, ou melhor: uma ilusão compartilhada. Não podemos imputar ao funk o que é produto da experiência social mais ampla. Os “soldados do crime” crescem em número principalmente pela absoluta ausência de perspectiva no que diz respeito às possibilidades reais de sucesso material pela via do trabalho dito “honesto”. Além disso, eles geralmente nascem em regiões periféricas que, como se sabe, apresentam precariedade na oferta de saneamento, saúde, educação, moradia, lazer e etc.
A própria dificuldade – territorial e monetária – de locomoção, por exemplo, torna o direito à cidade (sobretudo o acesso às regiões centrais e os produtos que dispõem) uma espécie de valor utópico para os sujeitos periféricos e, com isso, uma gama considerável de distorções aparecem no imaginário.
Não pretendemos aqui defender ou mesmo justificar a prática de sequestros, latrocínios e etc. A questão no limite é outra: muito antes da ação perversa e sanguinária dos chamados bandidos, a banalização da violência não encontraria já na arquitetura das favelas sua concretização mais explícita e representativa? Como é possível formas de habitação que produzem o empilhamento de seres humanos se tornarem, nos últimos anos, verdadeiros pontos de turismo cujo passeio é previamente comercializado nas agências de viagem? Nunca é demais relembrar que o pacote é vendido com direito a guia turístico e, em algumas ocasiões, souvenir sexual para fidelizar o cliente.
Em todo caso, se o Estado não tem moral na periferia, evidentemente que isso não é fruto de letras ofensivas feitas por jovens entusiastas do crime, e sim, entre tantas coisas, resultado da terrível qualidade dos serviços públicos oferecidos à parcela pauperizada da sociedade – serviços estes que incluem, por sua vez, a truculência policial.
Daleste era um artista de origem genuinamente popular. Foi nas quebradas da Penha (bairro periférico da zona leste de São Paulo) que o funkeiro nasceu. Iniciou sua carreira de MC aos 16 anos cantando suas composições em bailes e shows modestíssimos, sempre nas periferias. Justamente nesta fase é que surgem os “proibidões” mais contundentes, quando as letras são quase que inteiramente preenchidas por nomes, marcas e tipologias de revólveres, pistolas, fuzis, granadas e etc.
No entanto, o aspecto que mais chama a atenção é a recorrência das expressões ‘guerrilheiro’ e ‘terrorista’. O interessante é que muito embora utilizadas como sinônimos, na contramão do senso comum elas não apresentam sentido pejorativo; na verdade servem de elogio e tornam a figura do criminoso uma espécie de emblema superior e portador de valores nobres, um outsider que não tem nada de pacífico e que se encontra profundamente comprometido com a sobrevivência e a vitória na ‘guerra’ – outra expressão recorrente.
No imaginário sedimentado pela poesia dos funkeiros chapa-quente, o crime, mais do que produto de ressentimento, sintoma de perversidade ou projeto de fancaria, é na verdade um estilo de vida combativo à ordem violenta e opressiva que submete os de baixo. Isso tudo, vale dizer, apenas na perspectiva da poesia do imaginário chapa-quente.
Assim, o banditismo conformaria simbolicamente um exército de ‘heróis da favela’, aqueles que, segundo a canção de Daleste, enfrentam o risco de terminarem confinados nos presídios ou mesmo mortos em nome de uma causa maior: a vida no crime como gesto de poder.
Mas além do suposto entusiasmo pelo crime organizado, uma segunda face do funkeiro também vem sendo exaustivamente explorada pela grande mídia: a aparente esbórnia com que Daleste vivia, sem grandes pudores, ao desfilar pelos becos e vielas da zona leste com seu Porsche Cayenne, vidro abaixado, Rolex no pulso e anéis e pulseiras de ouro todos à mostra.
O estereótipo de ‘bon vivant’ respeitado na quebrada, a bem da verdade, foi conscientemente incorporado pelo jovem. Nos últimos anos ele abandonou um pouco a “apologia” partindo para outro ramo, o chamado “funk ostentação” que, se por um lado, permanece celebrando o ‘poder’ entre os favelados, por outro desloca o empoderamento das armas e do crime para as roupas, os carros, as bebidas e as mulheres, todos caríssimos – e que, na condição de “produtos de poder”, obrigatoriamente se mostram réplicas ou exemplares autênticos daquilo que normalmente é valorizado e consumido pela alta burguesia.
Entre muitos outros, há basicamente três importantes problemas perceptíveis a partir da construção de identidades apoiadas fortemente na “ostentação” de bens de consumo: 1) a interiorização da perspectiva típica das classes dominantes por parte das camadas dominadas, que passam a partilhar um ideário que, no fundo, é estrategicamente favorável e plenamente instituído somente entre os dominadores; 2) através do exibicionismo consumista de alguns sujeitos periféricos, a crença infundada de que a pobreza não apresenta raízes históricas objetivas que se formam a partir das interações sociais ganha força, assim como a noção de que o empenho individual é a verdadeira balança do sucesso material (inclusive entre os que originalmente se encontram em situação de pobreza); 3) o amor incondicional aos produtos de luxo submete toda e qualquer experiência humana aos feitiços da mercadoria, que imperam como realização absoluta de tudo o que aparentemente merece ser vivido ou possui valor de verdade.
É claro que a abordagem midiática passa a quilômetros de distância disso. Na melhor das hipóteses o que será ressaltado é o esforço dos artistas, que chegam a fazer cinco shows numa única noite e, portanto, merecem usufruir da riqueza que dispõem. Todavia, é precisamente essa maneira de enquadrar a questão que acaba dando brecha para que tipos deploráveis da sociedade brasileira, sobretudo de classe média, intensifiquem ainda mais o ódio que sentem pela população das periferias, geralmente miscigenada e descendente de africanos escravizados ou, mais recentemente, de trabalhadores que vieram das regiões norte e nordeste do país. Ao toparem com os funkeiros “na telinha”, pensam consigo mesmos: “Como pode um animal desses ter um carro de luxo lotado de gostosas enquanto eu, que trabalho há vinte anos” etc., etc. e etc...
Ocorre que a arte de Daleste extrapola os regimes da “ostentação” e da “apologia”. Ele também produziu funks “românticos”, orientados pela expectativa de realização ideal do amor verdadeiro, bem como funks de “consciência”, cuja sobriedade da letra somada à visão crítica em relação às dificuldades que o mundo impõe aos pretos e pobres da periferia apresenta forte afinidade com o rap. Mas com diferenças significativas.
Na obra dos Racionais o alto valor estético se sustenta pela elaboração estilística sólida, fruto do acúmulo de politização e também de repertório cultural, ambos adquiridos ao longo de duas décadas. Já a música do jovem funkeiro apresenta certa simplicidade técnica e artística (característica essa um tanto quanto comum ao funk em geral), as composições funcionam através de rimas simples e motivos comuns. No entanto, elas não perdem a dimensão lírica da existência humana, e sustentam em certa medida algo de dramático que tem parte com a experiência social.
Essa dualidade se cristaliza com especial vigor, por exemplo, no timbre de voz de Daleste. Meio infantil, meio efeminado e fortemente adocicado, ele corresponde ao gosto de mercado característico do pop em geral; todavia, há elementos mais complexos como certos exageros vocais que deixam transparecer em desafino o esforço empreendido, ou mesmo a velocidade e a destreza na dicção.
Esse jogo entre o que parece lúdico e pueril e, ao mesmo tempo, laborioso e produtor de sofrimento, lança alguma luz sobre o complexo em questão: Daleste conseguia, a seu modo, ser um produto que não deixava de revelar a dor da produtividade, e isso de uma maneira bastante peculiar e sutil. Sua voz, perfeitamente adequada ao gosto da massa, permanecia imperfeitamente relutante à ideia de perfeição. É como se o artista fosse o catalisador de materiais e elementos que percorrem a indústria cultural sem, contudo, sucumbir inteiramente aos seus domínios.
Outra cristalização nítida desse jogo de contrários é o desarranjo produzido pelos contrastes gritantes entre a pobreza e a riqueza que, à revelia da vontade pessoal, conviviam sempre juntas. O rapaz vivia pelas quebradas mesmo depois da fama, fazia jus ao apelido que carregava (Daleste surgiu como ênfase do lugar de origem, isto é, “da zona leste”), e nos diversos vídeos espalhados pelo youtube não há como desconsiderar o estranhamento e a faísca que o luxo e a precariedade, em constante interação visual, são capazes de produzir.
A variedade de estilos que explorou, em consonância à complexidade de sua própria personalidade, faz de Daleste uma espécie de condensação de tipos sociais profundamente representativos das periferias dos grandes centros urbanos.
No filme Bróder (Jeferson De, 2010), a título de exemplo, havia três grandes amigos representantes dos caminhos que se oferecem aos jovens pobres da cidade grande: Macu (Caio Blat) interpretava um jovem ligado ao crime; Jaiminho (Jonathan Haagensen) era o jogador de futebol, ídolo na comunidade e símbolo da ascensão social; enquanto Pibe (Sílvio Guindane) representava o trabalhador comum, homem de família, conformado às regras sociais e aos limites colocados pelo destino.
Os três formavam assim o elo de um universo fechado em diferentes níveis. E eles podem claramente servir para compreendermos Daleste que, em quatro anos de carreira, conseguiu ser um pouco de cada uma dessas personagens sem deixar de ser ele próprio.
É verdade, porém, que todo seu talento e fama tornaram-se irrelevantes à objetividade específica dos cálculos estatísticos que computam, na última década, o crescimento incisivo do número de jovens negros vítimas de homicídio no Brasil. Sua morte figura apenas como mais uma entre as inúmeras tragédias que se repetem diariamente em nosso país.
E independente se foi crime passional, cobrança de dívida, rivalidade ou ação de grupos de extermínio, o fato mesmo é que o menino não mais voltará a pisar nos palcos para encantar o povo pobre da periferia. Embora agindo por algum tempo como anfitrião, o ‘mundo cão’ parece mesmo ter conspirado contra Daleste.
* Christian Gilioti é professor de filosofia no ensino médio e mestrando em filosofia na FFLCH-USP. Pesquisa as formas artísticas de parte do cinema nacional da última década e suas imbricações com a cultura e a política contemporâneas.

Fonte: Brasil de Fato.