sábado, 9 de janeiro de 2010

Por Michel Onfrey.


Minha proposta é sair da era religiosa e teológica para entrar na era filosófica. É preciso parar de projetar a vida em universos inexistentes para construir a sua existência. Devemos nos contentar com este mundo real, examinar o que podemos fazer de nossas existências nesta vida que é pós moderna, pós industrial, pós fascista, pós comunista e pós cristã, seguramente. O que podemos fazer num período de niilismo? Somente a Filosofia poderá trazer as respostas. Gostaria que os livros de catecismo fossem substituídos, nas escolas, por ateliers de Filosofia, gostaria que todos nós refletíssemos juntos para, pelo menos, provocar a vontade de adquirir conhecimento. Sobretudo para aqueles que ficaram às margens, pois um dia, alguém disse que a Filosofia não era para eles; que ela foi feita para a elite, para a aristocracia e quem não fizesse parte dela, não teria direito a ela. O desejo da filosofia é o desejo da sabedoria, da necessidade de ética, de reflexão e de moral. Almejo uma Filosofia que esclareça, que simplifique sem se empobrecer. Quando me deparo, nos meus cursos da Universidade Popular de Caen, com anfiteatros lotados, com mais de mil pessoas, com transmissão em vídeo no saguão, para aqueles que não conseguiram entrar, eu constato que é possível, que a Filosofia poderá vencer o irracional.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

HUME.


“Em um primeiro momento, sinto-me assustado e confuso com
a solidão desesperadora em que me encontro dentro de minha
filosofia; imagino-me como um monstro estranho e rude que,
por incapaz de se misturar e se unir à sociedade, foi expulso de
todo relacionamento com os outros homens e largado em total
abandono e desconsolo. (...) Expus-me à inimizade de todos os
metafísicos, lógicos, matemáticos e mesmo teólogos; como me
espantar, então, com os insultos que devo sofrer? Declarei que
desaprovo seus sistemas; como me surpreender se expressarem
seu ódio a meu próprio sistema e a minha pessoa?”


(D. Hume. Tratado da Natureza Humana. São Paulo, EDUNESP, 2001)

A CAVERNA!


A caverna (...) é o mundo sensível onde vivemos. O fogo que
projeta as sombras na parede é um reflexo da luz verdadeira (do
Bem e das ideias) sobre o mundo sensível. Somos os prisioneiros. As
sombras são as coisas sensíveis, que tomamos pelas verdadeiras, e as
imagens ou sombras dessas sombras, criadas por artefatos fabricadores
de ilusões. Os grilhões são nossos preconceitos, nossa confiança
em nossos sentidos, nossas paixões e opiniões. O instrumento que
quebra os grilhões e permite a escalada do muro é a dialética. O
prisioneiro curioso que escapa é o filósofo. A luz que ele vê é a luz
plena do ser, isto é, o Bem, que ilumina o mundo inteligível como o
Sol ilumina o mundo sensível. O retorno à caverna para convidar os
outros a sair dela é o diálogo filosófico, e as maneiras desajeitadas
e insólitas do filósofo são compreensíveis, pois quem contemplou
a unidade da verdade já não sabe lidar habilmente com a multiplicidade
das opiniões nem mover-se com engenho no interior das
aparências e ilusões. Os anos despendidos na criação do instrumento
para sair da caverna são o esforço da alma para libertar-se. Conhecer
é, pois, um ato de libertação e de iluminação. A paideia filosófica é
uma conversão da alma voltando-se do sensível para o inteligível.
Essa educação não ensina coisas nem nos dá a visão, mas ensina
a ver, orienta o olhar, pois a alma, por sua natureza, possui em si
mesma a capacidade para ver.


(M. Chauí, Introdução à história da filosofia. São Paulo:
Companhia das Letras, 2002)